O tira-agrafos
Sento-me no consultório. O médico não estando de bata, veste um fato que parece uma farda. A gravata num dia de calor apertado. A mala em cima da secretária, como se pronta a pegar em caso de fuga. A caneta de tinta permanente rabisca a minha ficha. Confirma o meu nome, sublinha algumas palavras, acerta as perninhas dos às, aperfeiçoando a caligrafia. Os tique taques do relógio em cima da secretária. Então, mostre lá os seus exames. Abre o envelope, um agrafo impede a película de sair, a senhora da clínica decidiu agrafar a factura ao raio x. O médico escolhe um clip e luta contra o agrafo. Já não é a primeira vez que isto acontece, ri-se por entre a gravata, do lado de lá da secretária. Só um momento. Sai. Fico sozinha no consultório. Eu, o envelope do raio x, o agrafo, a secretária, os tique taques, a mala do médico que ameaça fugir porta fora atrás do dono, a caneta de tinta permanente jaz junto a uma perninha do último a do meu Ana. O médico regressa feliz ostentando um tira-agrafos, ora vamos lá continuar.

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